Kayapós respondem: por que realizar uma conferência de saúde específica para indígenas?

Nove etnias estão representadas na etapa distrital Kayapó da 6ª Conferência Nacional de Saúde Indígena (6ª CNSI): Apiaká, Juruna, Kaiabi, Kayapó, Munduruku, Panará, Tapayuna, Terena e Trumai.  A plenária é composta por lideranças indígenas, gestores, trabalhadores e pesquisadores do Sistema Único de Saúde (SUS), que estão propondo melhorias para a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (Pnaspi), em vigor desde 2002. O evento acontece entre os dias 18 e 20 de dezembro, em Colíder (MT). Mas por que realizar uma conferência de saúde específica para a população indígena no Brasil?

Alguns participantes do evento responderam à pergunta, apontando aquilo que os povos do nordeste do Mato Grosso e do sul do Pará desejam para o futuro: uma atenção diferenciada, já que os contextos e culturas das etnias indígenas são diferentes da população não-indígena no país. Ao todo, cerca de 6.500 indígenas compõem as etnias em 51 aldeias da região.

Da etapa distrital serão geradas 70 propostas que vão ser levadas por 16 delegados(as) para a etapa nacional, marcada para ocorrer em Brasília, de 27 a 31 de maio de 2019. Todo esse processo será discutido também na 16ª Conferência Nacional de Saúde (8ª+8), o maior evento de participação social do país, organizado pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), agendado para o segundo semestre do próximo ano.

Simone Terena – antropóloga do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Kayapó MT

“Estamos aqui para fomentar propostas que vão nortear as políticas públicas no governo federal. Nossas crianças, jovens, mulheres, anciãos, pajés, parteiras vão ter o resultado na prática das discussões dessa conferência. Há mais de 500 anos os povos indígenas sofrem descaso do Estado brasileiro. Os povos do DSEI Kayapó MT colocaram suas necessidades, suas vozes para que no futuro tenhamos resultados reais. A Pnaspi precisa ser executada de fato. É um trabalho árduo, mas estamos com muita vontade no distrito de fazer dar certo”.

Dilma Maria Mani Kayabi – liderança indígena, etnia Kayabi

“Precisamos de uma atenção diferenciada, nossa cultura muitas vezes não é respeitada. Precisamos que os profissionais da saúde do SUS entendam que também temos nossas práticas de saúde e nossos cuidados. Esse espaço é para construção de propostas a partir dos nossos pontos de vista, é um momento muito importante”.

Rogério Nunes – relator geral da conferência etapa distrital Kayapó da 6ª CNSI

“A Lei nº 8142/1990 rege todos os conselhos do Brasil, a Constituição de 1988 também define que os movimentos indígenas têm que ser ouvidos. Eles estão participando do processo de transformação da saúde. Tudo que temos hoje partiu das conferências, dos sonhos dos indígenas e dos profissionais aliados a eles que atuam no SUS. Eles estão definindo o futuro da saúde de seus povos. E nós estamos cumprindo a lei. O Brasil hoje está vivendo um esfacelamento da saúde pública e os indígenas sentem isso. O grito das aldeias é para que haja o fortalecimento de suas políticas para que possamos ampliar a assistência para média e alta complexidade”.

Megaron Txucarramãe – liderança indígena Kayapó

“Estamos discutindo a saúde dos índios. Hoje enfrentamos muitas doenças que não tínhamos antes: diabetes, pressão alta, colesterol alto, entre outras. Não podemos nos alimentar de industrializados. O SUS precisa saber como tratar o índio, para não ficarmos mais doentes. Precisamos apostar na prevenção, precisamos de formação, conscientização. Temos muitas propostas escritas, mas nem tudo está executado nas políticas. Aqui estamos reescrevendo as nossas propostas para a saúde e temos que cobrar a execução”.

Txuakre Metuktire – presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Kayapó

“Esse espaço é necessário porque aqui estamos criando normas de atendimento para a saúde indígena. Queremos um atendimento diferenciado. O SUS do jeito que está muitas vezes é complicado para nós. Precisamos de prioridade e de atendimento rápido. Vivemos longe, é difícil chegar nos espaços urbanos. Quanto mais esperamos, nós pioramos, entramos em estados graves das doenças. O cenário que está por vir do poder público é preocupante. Não podemos perder o que já conquistamos”.

Raquel Sirajup – conselheira do Condisi, etnia Kayabi

“Nossa conferência é importante porque aqui estamos fortalecendo a saúde dos povos indígenas. Nossa atenção tem que ser diferenciada. Estamos trazendo propostas para conquistarmos o melhor. Falta muito para executarmos o que está na Pnaspi, somos muitos indígenas no Brasil, temos um problema grande de fila de espera. É uma dificuldade grande porque o atendimento é muito longe de nós. Mas estamos aqui para tentar mudar esse cenário”.

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#PraCegoVer – a imagem de capa mostra três indígenas durante o credenciamento da conferência. As demais imagens mostram o rosto de cada um dos entrevistados em close.

Fonte: Conselho Nacional de Saúd